Quarta-feira, 2 de maio de 2007 às 18:11 (Última atualização: 31/07/2008 às 22:07:26)
Profissão Web Entrevista: Luli Radfahrer
Nesta quarta-feira teremos um momento muito especial com Luli Radfahrer* na seção Profissão Web Entrevista. Toda semana teremos uma entrevista com um convidado diferente. Nesta semana a entrevista apresentará a visão do Luli do “Novo diretor de criação” em tempos que se fala de Web 2.0.
Thiago Melo: Luli, em tempos que se fala de Web 2.0 e de empresas como o Google, que registrou já no primeito trimestre do ano o faturamente de 1 bilhão de dólares, você acredita que novos negócios podem ser criados com pouco investimento, muito trabalho e uma excelente idéia?
Luli: Sim, mais do que nunca. O mercado já sabe o que é a Internet, a bolha já estourou faz tempo e, com ela, se foram o capital especulativo e a idéia de se ganhar dinheiro rápido e fácil. Hoje, com uma série de tecnologias open source, AJAX e Apollo, pode-se fazer rapidamente um bom mashup, otimizando os dados brutos dos outros. É o que o Google Earth fez com as fotos de satélites e como vários outros vêm fazendo com esses novos mapas. Só que para isso é preciso se apoiar em um tripé de conhecimento nas áreas técnica, comercial e mercadológica.
Thiago Melo: Você acredita que o novo diretor de criação em tempos de Web 2 deve ser um geek ou um profissional mais criativo como um publicitário, por exemplo?
Luli: o publicitário é um dos profissionais menos criativos que existem, só perdendo para o fashionista. A maioria vive de reciclagem de idéias e repetição de chavões. Se você acha que os anúncios estão piores do que nunca, você não está sozinho. O novo diretor de criação, seja em que área for que atue, não precisa ser um geek, mas precisa estar ligado. Ele pode até se dar ao luxo de desconhecer como se faz uma página em Flash, mas precisa saber o que dá para se fazer com cada recurso disponível no mercado. Em outras palavras: um cara que se vista como tiozão dos anos 80 é o cara errado, mas o que se vista como personagem de Star Trek também o é. O mais importante é estar aberto a tudo que for nova idéia, venha de onde vier.
Thiago Melo: Você fala muito sobre a construção de cases e construção de cenários como a criação de um planejamento estratégico para o novo diretor de criação. Poderia explicar isso melhor para nós?
Luli: o cliente não cai mais nesse papinho mole de “talento”. Ele sabe quanto custou cada centavo de sua verba de comunicação e não vai desperdiçar com alguém de cabelos, óculos e roupas coloridas que fale um monte de termos em inglês para mostrar um “trocadalho” em um layout xexelento. Ou pelo menos não deveria. Ele trata a comunicação como investimento e quer saber quanto vai tirar de cada redesenho de layout. Você precisa dar isso a ele. Imagine que você tem uma loja ou um bar e contrata um arquiteto. É natural que você se pergunte quanto vai custar a obra e o que ela vai render em termos de novos negócios. Se todos pensamos assim na hora que somos clientes, por que estranhamos tanto ao ouvir essas perguntas? Você precisa mostrar para ele que design é um bom negócio, e que seu trabalho tem muito mais a ver com relevância que com beleza.
Thiago Melo: Você acredita que o novo diretor de criação deve conhecer a fundo o negócio do seu cliente. Quais ferramentas ele possui hoje ou pode buscar para esta pesquisa? Como o novo diretor de criação deve utilizar as fontes de pesquisa de mercado ou de um sistema CRM para isso?
Luli: a ferramenta mais importante é o próprio cliente. Se ele for um profissional razoável, certamente terá uma pilha de informações e experiências acumuladas com relação a seu produto, público e segmento. Ele vai adorar falar a respeito delas. Essa informação vale ouro e, mesmo que não seja a mais atualizada ou moderna, é certamente a mais útil. Bem ou mal, a empresa que contrata o designer existe e vende, portanto alguma coisa certa ela deve fazer.
Thiago Melo: Com quais mídias você acha que o novo diretor de criação deve trabalhar e como você acredita que ele deve integrá-las?
Luli: com todas. Ou melhor, com todas que forem relevantes. Vídeo é a mais importante de todas hoje em dia, e pode ser aplicada para advogados ou para peões de fábrica, por isso jamais deve ser desprezada. Outras – de RSS a serigrafia – devem ser utilizadas conforme a ocasião, tipo e tamanho de cliente. O diretor de criação é um maestro. Ele não precisa saber como tocar instrumento algum, mas precisa saber como harmonizá-los e como tirar o melhor de cada um. Não é uma tarefa fácil, agradável ou tranqüila, mas é fascinante. Se o designer não sabe ou não quer fazer isso, não tem problema, ele que contrate um diretor de criação e trabalhe serenamente na sua área. Afinal de contas, conhecemos mais atores que diretores de cinema, mais músicos que arranjadores. Não há mal algum em não ser um diretor de criação.
Thiago Melo: Como você acha que os novos diretores de criação poderiam iniciar no conhecimento de novos consoles de games e o que eles devem conhecer para integrar estes consoles com as mídias já utilizadas em uma campanha?
Luli: jogando é que não. É um caminho viciado, tortuoso e tendencioso. Ele pode ler a respeito, experimentar um ou outro, estudar suas capacidades, conhecer experiências de integração já realizadas… existem diversas formas. Para saber como integrar um console a uma estratégia de comunicação, ele deve pensar o contrário: qual é a estratégia, quem a consome, que outros hábitos essa pessoa tem, se é relevante entrar com uma ação em um game, que tipo de game pode oferecer algo que nenhum outro meio de comunicação possa oferecer… para só daí pensar em algo. Se a resposta para todas essas perguntas for afirmativa, a solução é fácil. Eu, por exemplo, estou desenvolvendo uma solução que usa telefones celulares para acompanhamento diagnóstico de pacientes com transtorno bipolar do humor. Garanto que o ponto de partida não foi olhar para um celular e pensar que problema psiquiátrico eu poderia colocar ali dentro.
Thiago Melo: Como você acha que o novo diretor de criação deve criar uma boa campanha de guerrilha ou viral?
Luli: se tivesse uma fórmula, ela já não seria boa.
Thiago Melo: Em tempos de Web 2 se vê muitos profissionais “freelancers” e “pessoas jurídicas” disputando o mercado com profissionais contratados pelas empresas. No mercado de hoje, com uma mão de obra cada vez mais especializada, como o novo diretor de criação deve dirigir essas equipes multidisciplinares onde cada profissional tem a sua própria linguagem e a sua própria herança cultural?
Luli: conhecendo bem cada um e vendo o que tem a oferecer. Com isso ele monta uma coleção de habilidades, que será comparada com a coleção de necessidades de seu cliente ou público. Se o cliente precisar de alguma coisa que ele não tem, deve sair para procurar. Não tem segredo. Ou melhor, achar o ponto de equilíbrio exato entre todos esses elementos é o verdadeiro segredo.












